J. V. Sanfelice
Com base nos educadores brasileiros Rubem Alves e
Paulo Freire, e no português José Pacheco. Coloco em pauta um projeto de uma
escola com padrões diferenciados, não com um caráter semelhante ao já imposto
pelos governos, mas sim, um lugar que faça crianças, jovens, adultos, idosos,
negros, brancos, pardos, índios, ricos, pobres, etc. aprenderem e ensinarem,
estudar por prazer, não apenas decorar regras, sem saber nem mesmo o motivo
pelo qual estão “aprendendo” (decorando). Uma escola que faça não só o
aprendiz, como também o mestre, descobrirem que a cada dia podem conhecer
coisas novas. E ainda, um ambiente onde o mestre é aprendiz e o aprendiz é
mestre, onde o autoritarismo não passa pela porta da entrada.
Nessas últimas décadas, temos assistido a falência
de uma escola que tenta preparar o “aluno” para o mercado de trabalho, ao invés
de orientar os jovens para a vida e conduzi-los a uma educação autônoma e
coletiva. De fato, há diversos argumentos que poderiam ser citados, estes dos
quais levaram a escola brasileira a tal situação. Entretanto, pode-se citar
pelo menos três que foram fundamentais.
O primeiro ponto é o autoritarismo. Mas de quem?
Dos próprios educadores e educadoras. Estes, que desejam ser detentores do
conhecimento e impor suas regras e ideias sobre o educando.
É Paulo Freire que diz: Quando a educação não é
libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor.
Segundo, o ensino mecanicista, que transforma
pessoas em seres robóticos para linhas de produção, seres não pensantes e facilmente
suscetíveis.
Outro ponto, e fundamental, é a própria sociedade consumista, elitista,
vaidosa e cúmplice de tudo o que vem acontecendo ao longo dos anos.
A mesma sociedade que define arquiteto superior ao pedreiro, e que diz
que o médico é mais importante que o enfermeiro.
Rubem Alves em seu texto Da inutilidade da infância faz um lindo e
emocionante comentário sobre o fato de pais que sonham que seus filhos tenham
certos rótulos:
O pai orgulhoso e
sólido olha para o filho saudável e imagina o futuro.
- Que é que você vai
ser quando crescer?
Pergunta inevitável,
necessária, previdente, que ninguém questiona.
- Ah! Quando eu
crescer, acho que vou ser médico!
A profissão não
importa muito, desde que ela pertença ao rol dos rótulos respeitáveis que um
pai gostaria de ver colocados ao nome do seu filho (e ao seu
obviamente)...engenheiro, diplomata, advogado, cientista...
Imagino um outro pai,
diferente, que não pode fazer perguntas sobre o futuro. Pai para quem o filho
não é uma entidade que “vai ser quando crescer”, mas que simplesmente é, por
enquanto...é que ele sofre de leucemia e, por isto mesmo, não vai ser nem
médico, nem mecânico, nem ascensorista. Que é que seu pai lhe disse? Penso que
o pai, esquecido de todos “os futuros possíveis e gloriosos” e dolorosamente
consciente da presença física, corporal da criança, se aproxima dela com toda
ternura e lhe diz: “Se tudo correr bem, iremos ao jardim zoológico no próximo
domingo...”
Em vista dos argumentos apresentados, somos levados a acreditar que
esses sistemas e projetos governamentais relativos a educação, de fato, não
podem ter um interesse realmente libertador. Paulo Freire diz: O Brasil foi
“inventado” de cima para baixo, autoritariamente. Precisamos reinventá-lo em
outros termos.
No entanto, como podemos superar tudo isso? Quem sabe começando por pequenas atitudes,
não para mudar a sociedade, entretanto, para salvar alguns.
Uma escola sem paredes separando turmas, sem sinais separando períodos,
sem livros didáticos definindo o que precisamos e o que não precisamos
aprender, sem notas para qualificar, sem regras enfadonhas que são apenas um
remédio para uma escola há muito tempo doente.
Obras de referência
RUBEM ALVES. A escola
que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir.
RUBEM ALVES. Estórias
de quem gosta de ensinar.
RUBEM ALVES. Aprendiz
de mim. Um bairro que virou escola.
JOSÉ PACHECO. Escola
da Ponte: Formação e transformação da educação.
PAULO FREIRE. A
importância do ato de ler.
PAULO FREIRE.
Pedagogia do oprimido.
PAULO FREIRE.
Pedagogia da autonomia.
