24 de abr. de 2016

Um caminho para a “pátria usurpadora”?


J. V. Sanfelice

Com base nos educadores brasileiros Rubem Alves e Paulo Freire, e no português José Pacheco. Coloco em pauta um projeto de uma escola com padrões diferenciados, não com um caráter semelhante ao já imposto pelos governos, mas sim, um lugar que faça crianças, jovens, adultos, idosos, negros, brancos, pardos, índios, ricos, pobres, etc. aprenderem e ensinarem, estudar por prazer, não apenas decorar regras, sem saber nem mesmo o motivo pelo qual estão “aprendendo” (decorando). Uma escola que faça não só o aprendiz, como também o mestre, descobrirem que a cada dia podem conhecer coisas novas. E ainda, um ambiente onde o mestre é aprendiz e o aprendiz é mestre, onde o autoritarismo não passa pela porta da entrada.
Nessas últimas décadas, temos assistido a falência de uma escola que tenta preparar o “aluno” para o mercado de trabalho, ao invés de orientar os jovens para a vida e conduzi-los a uma educação autônoma e coletiva. De fato, há diversos argumentos que poderiam ser citados, estes dos quais levaram a escola brasileira a tal situação. Entretanto, pode-se citar pelo menos três que foram fundamentais.
O primeiro ponto é o autoritarismo. Mas de quem? Dos próprios educadores e educadoras. Estes, que desejam ser detentores do conhecimento e impor suas regras e ideias sobre o educando.
É Paulo Freire que diz: Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor.
Segundo, o ensino mecanicista, que transforma pessoas em seres robóticos para linhas de produção, seres não pensantes e facilmente suscetíveis.
Outro ponto, e fundamental, é a própria sociedade consumista, elitista, vaidosa e cúmplice de tudo o que vem acontecendo ao longo dos anos.
A mesma sociedade que define arquiteto superior ao pedreiro, e que diz que o médico é mais importante que o enfermeiro.
Rubem Alves em seu texto Da inutilidade da infância faz um lindo e emocionante comentário sobre o fato de pais que sonham que seus filhos tenham certos rótulos:

O pai orgulhoso e sólido olha para o filho saudável e imagina o futuro.
- Que é que você vai ser quando crescer?
Pergunta inevitável, necessária, previdente, que ninguém questiona.
- Ah! Quando eu crescer, acho que vou ser médico!
A profissão não importa muito, desde que ela pertença ao rol dos rótulos respeitáveis que um pai gostaria de ver colocados ao nome do seu filho (e ao seu obviamente)...engenheiro, diplomata, advogado, cientista...
Imagino um outro pai, diferente, que não pode fazer perguntas sobre o futuro. Pai para quem o filho não é uma entidade que “vai ser quando crescer”, mas que simplesmente é, por enquanto...é que ele sofre de leucemia e, por isto mesmo, não vai ser nem médico, nem mecânico, nem ascensorista. Que é que seu pai lhe disse? Penso que o pai, esquecido de todos “os futuros possíveis e gloriosos” e dolorosamente consciente da presença física, corporal da criança, se aproxima dela com toda ternura e lhe diz: “Se tudo correr bem, iremos ao jardim zoológico no próximo domingo...”


Em vista dos argumentos apresentados, somos levados a acreditar que esses sistemas e projetos governamentais relativos a educação, de fato, não podem ter um interesse realmente libertador. Paulo Freire diz: O Brasil foi “inventado” de cima para baixo, autoritariamente. Precisamos reinventá-lo em outros termos.
No entanto, como podemos superar tudo isso?  Quem sabe começando por pequenas atitudes, não para mudar a sociedade, entretanto, para salvar alguns.
Uma escola sem paredes separando turmas, sem sinais separando períodos, sem livros didáticos definindo o que precisamos e o que não precisamos aprender, sem notas para qualificar, sem regras enfadonhas que são apenas um remédio para uma escola há muito tempo doente. 

Obras de referência

RUBEM ALVES. A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir.
RUBEM ALVES. Estórias de quem gosta de ensinar.
RUBEM ALVES. Aprendiz de mim. Um bairro que virou escola.
JOSÉ PACHECO. Escola da Ponte: Formação e transformação da educação.
PAULO FREIRE. A importância do ato de ler.
PAULO FREIRE. Pedagogia do oprimido.

PAULO FREIRE. Pedagogia da autonomia. 

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